João de Almeida

 

PACTO DA MEDIOCRIDADE

Uma das maiores causas do abaixamento do nível do ensino, nos últimos dez anos pelo menos, é a nosso ver o que há muito chamamos de "pacto da mediocridade". Refere-se essa expressão a um acordo tácito que, habitualmente, tem ocorrido entre professor e aluno, no processo ensino-aprendizagem, em que nem o primeiro ensina, nem o segundo aprende, mas ambos cumprem aparentemente as suas obrigações, um no seu comodismo escondendo a sua deficiente formação, outro no seu mínimo esforço ocultando a sua ignorância. Desde logo o aluno percebe que o professor é mal formado, tem lacunas imperdoáveis, mas não o questiona, aceita-o, admite-o, tolera-o, em troca do favor da promoção gratuita, com que o docente, sem condição de exigência alguma, falseia o seu processo de avaliação.

Parece-nos que esse estado de coisas se agravou em São Paulo no fim da década de 7O e princípios da de 8O, ficando como momento oficialmente marcado o deficiente concurso de efetivação do magistério público de primeiro e segundo graus, no início do Governo Maluf, concurso esse que, através de testes sem mínimo de nota, acabou por conceder aprovações em massa, para a estabilidade de docentes muito mal preparados. Pode-se bem imaginar que, em conseqüência, as classes de primeiro e segundo graus que ficaram depois nas mãos de tais professores muito pouco puderam aproveitar em termos de ensino seguro e se tornaram, obviamente, núcleos propícios a vários tipos de acordos escusos.

Hoje, infelizmente, tal espírito começa a avançar também no ensino oficial de terceiro grau. E o que acabou de ocorrer na Unesp de Assis é praticamente um exemplo típico.Os estudantes de Assis, depois de se disporem heroicamente a "apoiar" a greve de seus professores - justa, diga-se de passagem, nas suas reivindicações salariais, mas talvez organizada em momento inadequado - não assumiram efetivamente as conseqüências do apoio dado e, ao invés, resolveram ao final cobrar dos docentes a retribuição, com a exigência do término imediato do ano letivo e da concessão para todos da nota mínima que garantisse sem esforço a sua aprovação.

Veja-se que se pretendeu a mesma troca de gentilezas que caracterizou o referido "pacto da mediocridade", curiosamente mais disseminado na época em que esses mesmos universitários cursavam os bancos escolares do primeiro e segundo graus. Ainda bem que os professores da Unesp de Assis se uniram em torno da defesa de sua autonomia de avaliação, evitando, pelo menos por ora, que a democracia que aí se pretende degenere em "democratice", um regime de aparente igualdade, mas de fato desrespeitoso, que permite pactos e concessões que reduzem a dignidade pessoal e acadêmica, e que compromete muito seriamente o futuro da Universidade.

 

VOZ DA TERRA - 19/12/87